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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Encontros no shopping

Quem nunca cedeu à tentação de se enfiar num shopping em plena hora de ponta de saldos? 
Alguém por aí?
Ya, eu assumo. Já fui vítima do meu próprio cérebro reptiliano (montes de vezes!) Sou vítima do meu instinto animalesco que me obriga a comprar cenas muito abaixo do preço e que depois acabo por nunca usar [pausa, para me dar duas bofetadas...já está.]
Bom, mas o post de hoje não é sobre isto. Poderia estar para aqui a dissertar sobre a inflação, os lojistas, os looks, as pechinchas...mas a minha cena não é bem por aí.
[voltando ao shopping].
Sim, estive lá num desses domingos. Fomos comprar tinteiros para a impressora. Combatemos as filas (que remédio!), o M.C. bufou mais que o costume. O V. e a pequena C. tiveram que andar naqueles bichos que comem euros só para "abanicar" (existe esta palavra?) e espalhar magia musical nos corredores...entre outras coisas.
Enquanto o M.C. ficou na fila, o mais velho estava no cinema com a tia e eu fiquei com a pipoca ambas sentadas, num banco nada confortável, a "ver a banda passar". Até aqui tudo normal. Minutos depois,  fomos interrompidas por um senhor. Parecia que queria conversar, mas o que aconteceu a seguir não passou de um monólogo, pouco ou nada educativo, mas o suficientemente interessante para eu o "blogar" aqui.
Passo a contar-vos.
[Senhor na casa dos 70 e picos, dirigindo-se para a pequena C.]
- Ò menina, o tempo está bom é para ti. Eu também já tive a tua idade, sabias?
[Pausa. A C. olhava atentamente enquanto a chupeta se movimentava cada vez mais rápido]
(...)
[Senhor na casa dos 70 e picos, não obteve resposta da C., que por sua vez tem dois anos e estava a curtir umas chuchadelas...direciona o seu olhar para mim]
- Sabe senhora, eu sou viúvo há quase um ano. Tenho uma história muito triste. A minha mulher coitadinha trabalhou sempre na mesma fábrica. Era uma escrava do trabalho. Vinha para casa e fazia tudo enquanto eu me ocupava dos pinhais e dos terrenos. Um dia foi-se sentar no sofá, adormeceu por lá. Eu não fiz caso. No outro dia, quando me levantei estava lá morta. Mortinha. Ai coitadinha....
- Pois. - rematei.
[Mas ele não rematou. Continuou]
- Agora, tenho um filho a trabalhar em Lisboa e outro que estava na França que voltou para o pé de mim. Assim vou tendo alguma companhia. Mas ainda lhe digo mais...eu não me importava de ter alguém, assim uma senhora séria. Só para fazer o amor. Mas, como eu tenho dinheiro no banco, muitos terrenos e pinhais com pinheiros...elas querem é rapar-me os tostões! Então assim não quero nenhuma em casa. Essas são umas chulas. Então quando estou muito precisado, vou ter com elas e pago. Não ofendo ninguém, não é menina?
- Pois. - voltei a rematar.
[Mas ele não rematou. Continuou]
- Você não leva a mal o que eu estou para aqui a dizer pois não? É que não tenho com quem conversar e às vezes venho ao shopping e converso com as pessoas que por aqui andam.
[imagino]
E, num milagre, o M.C., chegou e eu despedi-me do senhor.
[Aqui para nós que ninguém nos "ouve", ò miúdas parece-me um bom partido, hein?]

Universo: Menos, mamã iogurte, menos!
Mamã Iogurte: Certo.
Era assim, meio parecido com este.

4 comentários:

  1. :D:D:D
    Eu tinha fugido logo dali. Ou lançado um olhar tão desinteressado e fulminante que o senhor tinha parado de desbobinar!

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    1. Foi o que me apeteceu...mas pronto, aguentei-me à bronca! :)

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  2. Por mais assustador que seja este tipo de situações (porque o são, de facto), a verdade é que denota o isolamento de alguns velhinhos do nosso Portugal, que não têm com quem falar.

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    1. É verdade. É uma realidade assustadora..
      Abraço!

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