Pega na caneta com a mesma delicadeza de uma agulha quando, esta, penetra na pele. Desta vez não dói. Os músculos transpiram, tímidos, num
sossego invejoso. Na folha não há palavras que preencham o espaço em branco, apenas
traços e cores. Com os pés fixos no chão, suga a energia terrena enquanto
desenha. Os desenhos têm a forma do seu tormento. Conto nuvens, flores e
inúmeras cabeças de onde nascem braços. As cabeças são as mães dos braços. E os
braços são as raízes que as alimentam.
As nuvens tem chuva. Porque chove meu anjo? Pergunto. Porque
a chuva é azul, responde. Azul, também é a cor dos meus sonhos e tu ainda não sabes.
Talvez nunca entendas.
Escondes os olhos debaixo de dioptrias e o sorriso frágil
que intercalas com provocações. Descalças os sapatos e pões os pés a nu. Pés
que fogem quando não aguentam o calor emanado de um amor pérfido. Amor que não
te escolheu.
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| Ilustração de Julia Seaside |






