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segunda-feira, 22 de julho de 2019

Porque chove meu anjo?


Pega na caneta com a mesma delicadeza de uma agulha quando, esta, penetra na pele. Desta vez não dói. Os músculos transpiram, tímidos, num sossego invejoso. Na folha não há palavras que preencham o espaço em branco, apenas traços e cores. Com os pés fixos no chão, suga a energia terrena enquanto desenha. Os desenhos têm a forma do seu tormento. Conto nuvens, flores e inúmeras cabeças de onde nascem braços. As cabeças são as mães dos braços. E os braços são as raízes que as alimentam.
As nuvens tem chuva. Porque chove meu anjo? Pergunto. Porque a chuva é azul, responde. Azul, também é a cor dos meus sonhos e tu ainda não sabes. Talvez nunca entendas.
Escondes os olhos debaixo de dioptrias e o sorriso frágil que intercalas com provocações. Descalças os sapatos e pões os pés a nu. Pés que fogem quando não aguentam o calor emanado de um amor pérfido. Amor que não te escolheu.


Ilustração de Julia Seaside

16 comentários:

  1. :)

    Onde está o botão de fazer "like"?

    Beijinhos sem redes, nem sociais *************

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  2. “As cabeças são as mães dos braços” serão os pés os dedos do coração? :)

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  3. Uau!
    Lindo. Adorei.
    Nem encontro palavras..
    Adorei :)

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  4. As crianças
    têm o dever
    de saber
    a razão do chover
    e também
    que chove sempre
    nos olhos de alguém

    (já mo dizia
    minha mãe)

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    Respostas
    1. E quando chove, chove a sério…
      Grande abraço Rogério!

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  5. Prosa poética no seu melhor e mais belo.
    Bjs

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  6. Oh. Que lindo. :)
    Beijinho

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  7. Estou encantada! Que incrível *-*

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  8. "As cabeças são as mães dos braços... " lindo... gosto da forma como narras, como nos descreves ao pormenor as tuas vivencia, com uma delicadeza quase tão crua que a sentimos na pele. Adorei o petiz que desenha sonhos de liberdade no papel.... a forma como interages com ele e ele contigo... essa forma sublime de explicar a chuva pela necessidade de traduzir a beleza do azul, mesmo nos dias mais cinzentos, por nos dares a primeira entender tão bem as tuas vivências, quase como se fosse nossas.. gosto definitivamente de te ler.
    É uma honra vir ca.... e é giro estar a faze-lo agora... no exato momento em que tive novas tuas.

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